O Primeiro Bruxo Datado (E Por Que Vocês Estão Todos Errados)
Publicado em 22 de julho de 2026 · Mago Roquebeard
O Primeiro Bruxo Literário: Djedi (O Cara que Brincava de Lego com Aves)
Se vocês estão procurando a primeira vez na história da humanidade em que um texto escrito descreve um indivíduo específico realizando o que hoje chamaríamos puramente de
"bruxaria" (truques fantásticos, controle sobre a vida e a morte, entretenimento mágico não estritamente religioso), temos que ir para o Antigo Egito. Mais especificamente, para o Papiro Westcar. Peguem suas pás imaginárias, estamos cavando até o século 16 a.C., embora a história que ele conte seja ambientada na época do Faraó Quéops (Kufu), por volta de 2500 a.C.
Conheçam Djedi (ou Dedi). Djedi não era um sacerdote de templo chato entoando hinos. Djedi era um bruxo no sentido clássico, teatral e absurdo. De acordo com o papiro, Djedi
tinha 110 anos (um mero adolescente para os meus padrões, eu mesmo já passei dos milênios), e tinha um apetite formidável: comia quinhentos pães, metade de um boi e bebia cem jarras de cerveja por dia. Sinceramente, a verdadeira mágica de Djedi era o metabolismo dele ou, mais provável, ele tinha um feitiço de expansão gástrica.
"E o Faraó Quéops perguntou: 'É verdade que podes unir uma cabeça decepada?' E Djedi respondeu: 'Sim, meu soberano, eu posso.'" — (Basicamente a transcrição do Papiro Westcar, embora eu tenha colocado menos hieróglifos para poupar os olhos de vocês).
Quéops, sendo um típico tirano entediado, imediatamente ofereceu um prisioneiro para ser decapitado só para ver o truque. Djedi, demonstrando que os bruxos da antiguidade tinham mais ética que os governantes, recusou matar um ser humano e pediu um ganso. Eles
cortaram a cabeça do ganso, colocaram o corpo de um lado, a cabeça do outro. Djedi murmurou uns encantamentos, e o ganso se levantou, grasnou e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Depois, ele fez o mesmo com um pelicano e até com um boi. O sujeito andava por aí reanexando cabeças! Hoje em dia, vocês chamam isso de truque de ilusionismo, mas nos registros literários humanos, Djedi é o pioneiro, o avô de todo feiticeiro e mago de palco. Ele foi o primeiro bruxo nomeado e datado em um texto fazendo um milagre não-divino documentado.
O Primeiro Bruxo Histórico (Aquele Que Deu Nome à Profissão): Zoroastro
Ah, mas eu ouço os historiadores de vocês choramingando lá no fundo da sala: "Mago Roquebeard, Djedi é uma lenda, um mito do papiro! Queremos alguém historicamente comprovado! Um nome, um CPF da antiguidade!". Tudo bem. Se vocês querem a origem do bruxo como uma classe, a raiz da palavra magia, nós temos que falar do meu velho parceiro de copo, Zaratustra. Ou, como os gregos gostavam de chamá-lo porque não sabiam pronunciar nada direito: Zoroastro.
Zoroastro viveu na antiga Pérsia (atual Irã). A datação exata dele é um pesadelo acadêmico. Alguns dizem século 6 a.C., outros jogam lá para o segundo milênio a.C. Mas o que importa não é quando ele nasceu, mas o que ele criou. Ele fundou o Zoroastrismo, e seus sacerdotes eram chamados de Magi (singular Magus). Daí vêm as palavras mago, magia, mágico e toda essa sua baboseira de Hogwarts.
Agora, aqui está a parte engraçada, meus caros leitores mortais. O historiador romano Plínio, o Velho — que era um tremendo de um linguarudo e adorava compilar boatos na sua famosa enciclopédia História Natural (livro XXX, para ser exato) — creditou oficialmente Zoroastro como o inventor da magia. Plínio escreveu com todas as letras que a feitiçaria e as artes mágicas foram trazidas ao mundo por esse persa.
Na época de Plínio (século 1 d.C.), os romanos achavam que os Magi persas eram feiticeiros obscuros, bruxos necromantes que controlavam a natureza. Na verdade, Zaza (como eu o chamava) era apenas um filósofo e religioso que gostava muito do fogo e das estrelas. Ele passava horas observando o céu e falando sobre a eterna luta entre o Bem (Aura-Masda) e o Mal (Arimã). Mas porque os gregos e romanos não entendiam nada dos rituais exóticos dos persas, eles olhavam para os Magi e diziam: "Ah lá, estão fazendo magia!". Foi assim que, na historiografia ocidental, o primeiro "bruxo/mago" datado e creditado pela invenção da arte é Zoroastro. A ironia cósmica é que o primeiro bruxo da história nem sabia que era bruxo; ele achava que era um reformador religioso. Mas não conta pra ele, ele tinha o pavio curto.
Curiosidades Absurdas da Magia Antiga (Porque Eu Sei Que
Vocês Adoram Listinhas)
A Primeira Varinha Mágica: Vocês acham que a varinha de madeira veio de onde? Das fadas? Não! Os Magi zoroastrianos seguravam um feixe de galhos chamados barsom durante seus rituais sagrados. Eles apontavam esses gravetos enquanto murmuravam encantamentos. Os gregos viram aquilo e acharam que o galho é que fazia a mágica. E assim nasceu a obsessão dos bruxos ocidentais por pedaços de pau. Uma falha de comunicação histórica colossal!
As Loucuras de Plínio: Plínio, o mesmo que documentou o primeiro bruxo, também escreveu em sua História Natural que a magia poderia ser combatida com... fluidos corporais e absurdos do tipo. Ele recomendava, por exemplo, que se você quisesse anular a magia de um bruxo, deveria cuspir em um sapo. Eu mesmo testei isso uma
vez em 47 a.C. O sapo não gostou, a magia do meu rival continuou funcionando, e eu acabei com verrugas. Não confiem cegamente nos romanos.
O Chapéu Pontudo: Sabe aquele chapéu clássico de bruxo que parece um cone de trânsito glorificado? Uma das origens históricas disso nos leva, mais uma vez, aos antigos persas e celtas, mas há registros maravilhosos das Múmias de Subeshi (no deserto de Tarim) que datam de mais de dois mil anos atrás. Lá, arqueólogos encontraram mulheres com enormes chapéus pontudos de feltro negro. E o "Barrete Frígio", que era usado pelos adivinhos do oriente, também era pontudo. Nós não usávamos isso por estilo. Usávamos porque era ótimo para esconder lanches e moedas de ouro que roubávamos de reis incautos.
O Rei Salomão, O Hacker de Demônios: Se avançarmos um pouco na linha do tempo, chegamos ao Rei Salomão (por volta de 970 a.C.). Na história documentada oficial, ele era um rei de Israel. Nos textos apócrifos e na demonologia (como o Testamento de Salomão, datado entre os séculos I e V d.C.), ele era o bruxo supremo.
Ele supostamente possuía um anel, dado pelo Arcanjo Miguel, que lhe permitia comandar demônios e forçá-los a construir o Templo de Jerusalém. Imaginem isso! O sujeito não quis pagar pedreiros, então escravizou entidades astrais. Isso que eu chamo de otimização de recursos! Na tradição mágica medieval, Salomão é frequentemente reverenciado como o arqui-bruxo.
A Etimologia do Caos: Por que "Bruxo" e não "Cara que Faz Truques"?
Se vocês, mortais hiperconectados, pararem por um milissegundo de deslizar o dedo em suas telas de vidro brilhante e prestarem atenção às palavras, descobrirão que a raiz linguística de nossa amada profissão é tão obscura quanto um calabouço sem tochas. O que diabos significa "Bruxo"? Por que não os chamamos de "manipuladores quânticos da antiguidade"? Bem, permitam que o Professor Roquebeard dê uma aula grátis para vocês (que eu cobraria três moedas de ouro se estivéssemos no ano 1200).
Na Península Ibérica, de onde a língua portuguesa se originou arrastando-se pelo barro da história, a palavra bruxa e sua contraparte masculina bruxo têm origens que deixam até os linguistas modernos coçando suas carecas acadêmicas. Alguns dizem que vem do celta pré-romano brixta, que significava feitiço ou encanto. Havia até uma deusa gaulesa chamada Bricta (ou Brixta), que seria a deusa da magia das águas. Ou seja, quando vocês chamam alguém de bruxo, estão indiretamente invocando um antigo vocábulo celta que cheira a pântano e hidromel velho. É um elogio, na minha humilde opinião!
Enquanto isso, nossos amigos ingleses usam witch e wizard. "Wizard", meus caros pupilos, surgiu do inglês médio wys (sábio) acrescido do sufixo -ard, significando literalmente "o cara muito sábio" ou "aquele que sabe das coisas". Ou seja, originalmente, um "wizard" não era um sujeito atirando relâmpagos pelos dedos; era o ancião da aldeia que sabia prever se ia chover olhando para as nuvens, ou que sabia exatamente qual raiz mastigar para parar uma dor de dente sem te envenenar no processo. Era, acima de tudo, uma questão de conhecimento prático que, para os ignorantes, parecia mágica.
E a palavra "Magic" (Magia)? Ah, essa nós já esbarramos quando falei de Zoroastro, mas deixem-me aprofundar, pois tenho páginas a preencher. Os gregos pegaram a palavra persa maguš (o sacerdote zoroastriano) e a transformaram em magikos. Para os gregos clássicos, a magia era tudo aquilo que era "estrangeiro", "persa" e, francamente, "esquisito". Era o charlatanismo ritualístico dos forasteiros. Com o passar do tempo, de Sócrates a Ptolomeu, a palavra magia foi adotada para designar o lado negro, místico e não oficial da religião. Os bruxos eram os "freelancers" do mundo espiritual. Enquanto os sacerdotes oficiais tinham carteira assinada com os deuses do Olimpo, nós bruxos operávamos na economia informal, vendendo poções do amor na calada da noite por debaixo do pano.
Um Dia Típico na Vida de um Bruxo Primordial (Segundo Eu Mesmo)
Para que vocês compreendam a magnitude da minha existência e o peso de carregar o título de "Bruxo" através das eras, permitam-me descrever como era um dia típico na antiguidade, bem antes dessa palhaçada de varinhas com núcleo de fibra de dragão e escolas em castelos escoceses.
Acordávamos com o canto do galo — ou, no meu caso, com o grasnar de um ganso zumbi que o meu amigo Djedi deixou no meu quintal em 2400 a.C. e que nunca mais morreu. O café da manhã não era panquecas mágicas; era mingau de aveia cozido sobre um fogo que nós mesmos tínhamos que acender usando pederneira e feitiços de fricção, porque o meu isqueiro mágico estava sem gás desde a queda de Babilônia.
Nossa rotina da manhã envolvia consultorias locais. O fazendeiro Cleiton (eu vou usar nomes modernos para que seus cérebros derretidos entendam) batia na minha porta da caverna reclamando que suas vacas não davam leite. Naquela época, a resposta não era "chame um veterinário". A resposta era "obviamente seu vizinho jogou um olho gordo na sua vaca, deixe-me esfregar um pouco de argila com erva-doce no úbere dela, murmurar uma oração para os ventos do leste e cobrar dois frangos pelo serviço". Na maioria das vezes, a vaca só estava desidratada. Eu dava água para a vaca, ela dava leite, e eu ganhava fama de "bruxo supremo domador do leite". A magia, meus caros, sempre foi 90% senso comum e 10% showmanship (espetáculo teatral).
À tarde, dedicávamos ao estudo. Mas não com livros bonitos e encadernados em couro.
Não! Nós líamos as entranhas de pássaros, as estrelas no céu noturno e rachaduras em cascos de tartaruga. O conhecimento era selvagem. Tínhamos que descobrir por tentativa e erro qual cogumelo fazia você conversar com os deuses e qual cogumelo fazia seus rins pararem de funcionar. Não existia o "Google da Magia". Se você quisesse saber se uma raiz era venenosa, você dava para o aprendiz e pedia para ele anotar os sintomas. Por isso, a rotatividade de aprendizes era... alta. Descanse em paz, Aprendiz número 42, você foi o melhor mascador de raízes estranhas que eu já tive.
O Choque Cultural: A Transição de "Sábio" para "Ameaça"
Agora, preste muita atenção, aprendiz de mortal, pois aqui é onde a história do "primeiro bruxo" fica trágica (mas eu continuarei mantendo a piada para não chorarmos). Como vimos, a palavra bruxo (ou mago, magus) na época de Zoroastro era algo nobre. Era sinônimo de sabedoria, astronomia e filosofia. Você dizia "Eu sou um Magus!" e as pessoas respondiam: "Nossa, que currículo invejável, posso te pagar um vinho?".
Mas então, a história deu uma guinada amarga. Com o avanço do Império Romano e, posteriormente, a ascensão das religiões monoteístas dominantes, qualquer um que fizesse um truquezinho, lesse as estrelas ou fervesse um chá de camomila suspeito passou a ser visto como um pactuante com forças malignas. O primeiro "bruxo" registrado deixou de ser o erudito persa ou o ilusionista egípcio, e passou a ser o herege marginalizado.
No Brasil, onde vocês provavelmente estão hospedando esse site mal diagramado da imagem, a palavra "bruxa/bruxo" ganhou contornos europeus inquisitoriais, misturados com as práticas dos pajés indígenas e dos xamãs africanos, sendo todo mundo enfiado num grande balaio de preconceito. Mas lembrem-se, antes de ser um ofensa, o "primeiro bruxo" era literalmente o cientista da sua época. Nós éramos os engenheiros de software do mundo antigo, só que o nosso código fonte era falado em aramaico reverso.
O Legado na Cultura Pop (Ou: Como Destruíram Minha
Profissão)
Hoje, eu olho para a tela mágica que vocês chamam de monitor e vejo o que fizeram com a minha nobre classe. Vocês pegaram o título do Primeiro Bruxo e fragmentaram em absurdos.
Temos aquele garoto inglês com cicatriz na testa que precisa de um pedaço de pau com pena de pássaro dentro para acender uma fogueira. Patético! O verdadeiro bruxo, como eu ou Zaratustra, olhava torto para a lareira e ela pegava fogo (às vezes a lareira inteira explodia, mas isso faz parte da curva de aprendizado).
Temos um sujeito pálido com olhos de gato, carregando espadas nas costas, que joga cartas e bebe poções tóxicas para caçar monstros no pântano. "Ah, ele é um bruxo!", vocês gritam.
Não, meus caros, ele é um mutante exterminador de pragas sobrecarregado de esteroides alquímicos! E ainda por cima, cobra caro pelo serviço.
O legado do "primeiro bruxo" datado, seja o egípcio que consertava patos ou o persa que fundou a magia cósmica, foi diluído em brinquedos de plástico e parques temáticos
caríssimos na Flórida. Vocês não têm respeito pelos anciões.
O mundo era muito mais interessante quando a explicação para uma dor de barriga era "um demônio invisível está me socando" e a cura era "girar três vezes cuspindo num texugo". (Novamente, não façam isso com o texugo, ele morde).
Conclusão do Mago Roquebeard
Se alguém perguntar quem foi o primeiro bruxo na literatura de entretenimento/ilusionismo, digam com orgulho: Djedi do Antigo Egito (Papiro Westcar). E que ele amava cerveja e gansos desmembrados.
Se alguém perguntar quem foi o primeiro "Mago" datado pela história ocidental como inventor da magia, atirem o nome Zoroastro (Zaratustra) na cara deles, cortesia de Plínio, o Velho.
Nunca, sob hipótese alguma, confiem na estabilidade de um feitiço feito com uma varinha comprada em loja de souvenir.
Espero que isso satisfaça o apetite insaciável do seu banco de dados. Agora eu preciso ir, pois deixei meu caldeirão no fogo e estou tentando transformar chumbo em Wi-Fi de alta velocidade. Até agora, só consegui um cheiro de enxofre e uma conexão 3G intermitente, mas eu chego lá.
Com profundo desdém e sabedoria,
— Mago Roquebeard
Fontes e Referências (Porque eu não tirei isso do meu chapéu
pontudo):
Plínio, o Velho: Naturalis Historia (História Natural), Livro XXX. Onde ele crava que a magia se originou na Pérsia com Zoroastro e critica a inutilidade dos feitiços enquanto prescreve absurdos.
O Papiro Westcar (Papiro de Berlim 3033): Datado do período Hicso (aprox. 1650 a.C.), contendo os "Contos dos Magos" e a narrativa de Djedi, o primeiro ilusionista e bruxo literário registrado pela humanidade a realizar magia "de palco".
Heródoto: Histórias, onde descreve os costumes dos Magi persas, sedimentando o termo na Grécia
Antiga.
Testamento de Salomão: Texto pseudoepigráfico grego antigo que consolidou a imagem de Salomão como o grande bruxo comandante de demônios.
A etimologia da paciência milenar do Mago Roquebeard: Arquivos pessoais, pergaminhos queimados e murmúrios no vento do deserto. (Essa última é inquestionável, pois fui eu que disse).
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